CONTOS DA MEIA-NOITE

História de Botija - O Tesouro Macabro



Era início do mês de novembro, fazia três anos que não sabia o que era tirar férias, trabalhar e estudar dia e noite é muito cansativo. Este ano resolvi, vou dar uma pausa em tudo, para meu merecido descanso, e para fugir da agitação da cidade grande, fui passar uns dias no sítio do meu pai na região do Seridó. O sítio era bem afastado da cidade, a caatinga ao redor do antigo casarão era quase intocada, ou seja, de dia no máximo se ouvia o canto dos pássaros, à noite, silêncio total era a contemplação das estrelas no céu.

Meu pai e minha mãe, depois que se aposentaram foram morar na cidade, mas eles sempre vão passar o final de semana no sítio, arrumar uma coisa aqui outra lá, ou seja, está sempre bem cuidado e conservado, com um mínimo de estrutura de uma casa, um fogão velho, uma geladeira velha, mesa, cadeiras, pratos e panelas etc... claro, nenhum luxo no qual sem querer acabamos nos acostumados, e acaba se tornando imprescindível no dia a dia da gente, como tv a cabo, internet banda larga, e o principal para mim, ar-condicionado.

Para fugir do calor, resolvi dormir no alpendre mesmo, apesar do calor costumeiro do mês, o vento suave da noite no sertão costuma ser muito agradável.

Meus pais, claro, queriam que ficasse na cidade com eles, mas eu queria mesmo era me isolar do mundo, ler alguns bons livros e descansar, comprei alguns mantimentos para cozinhar no sítio e partir.

Na primeira noite, armei minha rede, peguei um livro comecei a ler, depois de certo tempo o sono veio, deixei o livro de lado e cai no sono, a brisa suave da noite, a luminescência das estrelas embalaram meu sono reparador.

O lusco-fusco do amanhecer me acordou, naquela noite, foi a primeira vez que sonhei com o espírito do velho Joaquim Febrônio, que já falecerá faz mais ou menos trinta anos.

Nunca vi pessoalmente, mais ouvi muitas histórias sobre ele, meu pai tem uma foto dele, foi assim que reconheci alma do velho, o sítio dele faz divisa com o do meu pai, fica bem no pé da serra.

Meu pai sempre falava que ele era uma pessoa muita avarenta, trabalhava muito de sol a sol com somente no intuito de juntar riqueza, tinha ódio da palavra gastar, se alimentava somente do que colhia no seu sítio, casou-se e teve apenas um filho, quando esse filho fez 12 anos, o pai expulsou ele de casa, disse que ele fosse trabalhar para si sustentar, apesar do garoto sempre trabalhar no sítio.

Hoje, o filho do velho Febrônio, herdou o sítio do pai, mas nunca voltou lá. Tempos depois confidenciou a amigos que, tem péssimas lembranças do tempo em que viveu no sítio do pai.

Essa história me marcou muito quando mais jovem.

Na segunda noite, sonhei com ele novamente, tudo igualzinho como no primeiro sonho.

No sonho, eu estava no alpendre deitado na rede lendo, quando olhei meu relógio, o ponteiro marcava meia-noite, somente uma lamparina velha iluminava o lugar, quando inesperadamente tomei o maior susto, uma pessoa agarrou os cordões da rede, e balançou com toda força, era um homem alto de aspecto pálido, meio mal maltrapilho, neste momento me recordei quem era, ele olhou profundamente em meus olhos e falou com uma voz muito cansada, eu simplesmente fiquei atônito na rede escutando:

- “Filho, nesse mundo que eu estou agora, coisas materiais do seu mundo ainda me perseguem, todo meu ouro, fruto da minha ganância em vida não me serve de nada, e sim, só me atrapalha na evolução da minha alma, sou uma alma penada pelo egoísmo que cultive a vida inteira. Mas você pode ajudar a me libertar das amarras que me predem a esse mundo. No meu sítio, do casarão onde morei a vida toda, conte 43 passos da porta da sala em direção a um grande pé de angicos, vá... E sumiu feito fumaça ao vento. “

Acordei muito assustado, era tudo muito real, mas não contei a ninguém sobre o sonho, também, como diz a lenda, a alma vem três vezes oferecer a botija ao escolhido.

Dito e feito, na noite seguinte, sonhei tudo novamente, mas nesse terceiro sonho o velho Joaquim Febrônio, me deu uma recomendação aterrorizante, apavorante mesmo:

- “Tome muito cuidado, tenha muita fé em Deus e Nossa Senhora, tenha muita coragem, o belzebu, o tinhoso, o demônio, o satanás vai lhe atentar, vai fazer de tudo, para que minha alma não saia dos seus domínios, você deve ir à meia-noite. “

Acordei assustado, olhei no relógio era três da madrugada, essa noite não consegui dormir mais, só fiquei pensando em tudo aquilo, nunca acreditei em alma penada, fantasma e botijas, nada disso, sempre pensei que era lenda, coisas inventadas para colocar medo nas pessoas. E agora me deparo com isso.

Depois de muito pensar nesta noite, conclui que não posso ir só, é preciso de uma pessoa forte e muito corajosa e na minha mente só vem uma pessoa para encarar essa empreitada macabra, meu irmão, ele é uma pessoa muito boa e bruta também, afinal o trabalho vai ser pesado.

Liguei para ele vir no sítio de papai, pois tinha um ótimo negócio para lhe propor, ele que mora num outro sítio a mais ou menos uma légua (6 km) de distância, não demorou para riscar no terreiro com sua velha moto.

Após os comprimentos, contei a ele sobre os sonhos, ele só me fez uma pergunta:

- “Meu irmão, me diga, seja sincero com seu irmão mais velho, você se cagou? ” E deu aquela gargalhada, esqueci de mencionar outro adjetivo dele: brincalhão, tanto que dá até raiva.

- “Agora falando sério, meia noite estarei aqui na casa de papai, arrume vela benta. Vou lhe dizer uma coisa, se é verdade que o velho Febrônio era tão avarento como dizem, deve ter muitos patacões de ouro em um baú enorme, vamos ficar ricos meu irmão.”

Sempre me considerei um homem corajoso, e a ideia do ouro e da riqueza me faz ter ainda, mas coragem.

Era meia-noite, só as estrelas e uma pequena resta da lua crescente iluminavam o céu do sertão, meu irmão e eu já estávamos na casa do sítio de papai, pegamos uma ferramenta de cada, pá, enxada e picareta. Fomos andando a pé até a casa do velho Febrônio, meu irmão iluminava o caminho com a lanterna do celular, o trajeto era um pouco distante, mas o ruim mesmo era o caminho, pois o sítio do velho Febrônio estava há muito tempo abandonado, e o caminho estava meio fechado por galhos com espinhos.

Na passada pela cerca que dividia os sítios, levei o maior susto, e acabei me cortando nas costas com arame farpado, fato é que, uma coruja deu piado perto da gente, bem na hora que eu estava passando por baixo da cerca. Meu irmão deu aquela gargalhada e me chamou de medroso.

Assim que chegamos ao antigo casarão do velho Febrônio, que hoje se resume somente à ruinas, só as velhas paredes largar continuam de pé, o resto caiu tudo, é desolador e assustador aquele lugar ermo. Da porta da sala, que por sinal, é uma das poucas coisas que estão de inteiras, contamos 43 passos em direção ao frondoso pé angicos, decidido o local, limpamos o mato seco que estava no local que pretendíamos cavar.

Meu irmão perguntou:

- “Trouxe a vela benta?”

- “Não, mas trouxe uma lanterna novinha, e as pilhas também são novas.”

Então ele zangado com minha falha, falou:

- “Então é uma lanterna benta, animal, tem que ser vela, já começamos mal!!! Liga aí, pelo menos vamos enxergar melhor o lugar, meu celular está quase descarregando. “

Liguei a lanterna, um facho de luz grande, iluminou bem o lugar, até meu irmão me elogiou, do jeito dele:

- “É, parece ter sido uma boa ideia, vamos trabalhar.”

Como diz a lenda, meu irmão desenhou "Selo de Salomão", também conhecida como "Estrela de Davi", antes de começar a cavar.
Assim que começamos a cavar, ouvimos galhos secos sendo quebrados, como se alguém estivesse caminhando pela mata ressecada pela seca.

Perguntei ao meu irmão, se ele achava que alguém estava nos seguindo, para pegar o nosso tesouro? Ele respondeu:

- “Nada, deve ser alguma raposa ou guaxinim andando na mata. ”

Depois, vimos vultos por trás das ruinas do velho casarão, um uivo estridente nos arrepiou.

Meu irmão dizia:

- “Reze um Pai Nosso e uma Ave Maria e cave, cave rápido...”

Saindo da mata, uma senhora muito velha chegou a uns dois metros de distância de onde estávamos cavando, a lanterna iluminou bem a senhora, dava para vê-la, ela tinha o rosto e mãos cheias de feridas, dava até para sentir o mal cheiro, ela usava roupas pretas e uma capa de cor roxo escuro arrastando no chão e tinha um olhar sombrio, paramos a escavação, meu irmão perguntou:

- “Boa noite senhora, podemos ajudar em algo?”

Neste momento, ela sumiu, se evaporou-se diante de nossos olhos, somente a capa foi caindo lentamente no chão e ficou lá, debaixo da capa da velha senhora começaram a sair ratos, muito ratos, eles eram enormes, e queriam nos morder, meu irmão e eu jogamos terra para espantar os ratos, nós estávamos desesperados pois tínhamos muito medo de ratos desde da infância, mas quando a terra os tocavam, eles desapareciam.

Meu irmão gritou para mim:

- “É uma visão, continue cavando e jogando terra neles...”

Pouco tempo depois, parou. Fez aquele silêncio sepulcral de zunir os ouvidos.

A lanterna piscou, piscou e depois apagou, quando fui chegando perto para pegar para ver o que estava acontecendo, as pilhas da lanterna explodiram, meu irmão caiu sentado do susto. Nem precisa dizer, que nossos celulares também queimaram.

Um vulto arrastando correntes passou próximo onde cavamos, eu quase tirei em disparada, meu irmão me segurou pela camisa, me deu um tapa no rosto e disse:

- “Pense no ouro cabra, pense na riqueza debaixo de nossos pés, cave agora, ande. ”

Começamos a notar sombras se esgueirando, vultos de olhos brancos, eram muitos, escultamos sons de lamúrias, eram aterrorizante.

Quando o buraco estava a meio metro de profundidade, começaram a sair cobras, muitas cobras, de todos os tamanhos, umas se enroscavam em nossas pernas, outras subia até a borda do buraco, eu tentava matar as cobras, mas o esforço era em vão. Meu irmão gritou nervoso para mim:

- “Continue a cavar, é só visões, continue a cavar.... esse ouro vai ser nosso, vamos ficar ricos.”

Eu só queria sair dali o mais rápido possível. Apareceu na nossa frente um bode preto, ele era enorme, bem maior que um bode comum, os chifres eram grandes, os olhos dele eram vermelhos como brasa incandescentes, ele nos encarou e bufou tão forte, parecia um som de uma trombeta, ficamos paralisados, podemos ver fumaça sair pelas suas narinas, nesse momento o mal cheiro de enxofre tomou conta do lugar, ficou difícil até respirar, o bode bateu com casco esquerdo no chão, foi uma batida tão forte que estrondou tudo, saiu até faíscas, dava para sentir a terra tremer. O bode bateu mais duas vezes, quando ele bateu a terceira vez o casco esquerdo no chão, começou a sair uma fumaça negra, ele ficou de pé, eu estava com tanto medo que mal dava para respirar, eu olhei para meu irmão, ele estava paralisado e branco de medo, dava para ver, o ser se transformou em uma criatura meio bode e meio gente, ficou completamente de pé.

Neste momento meu irmão gritou:

- “Corre, é o próprio satanás, corre... “ E tirou em disparada, como diz o ditado popular: ‘Nem bala pegava’. Eu não tive coragem de permanecer lá sozinho e também corri, no início da carreira, faltava forças para correr, o medo era tão grande, que minhas pernas pareciam moles, sem força mesmo, mas depois de um certo tempo, minhas pernas corriam tanto, que eu nem tinha domínio sobre elas, eu só queria ir embora para o mais longe possível, nem sei explicar como passei por debaixo da cerca da divisa dos sítios de tanto medo.

Não tivemos coragem suficiente para aquilo tudo, aquelas visões se tornaram insuportáveis, era tudo muito real, mas nem tudo estava perdido, o buraco já estava aberto, porém meu irmão disse que nunca mais queria saber de botija na vida dele, estava muito assustado.

Então eu resolvi voltar lá, não poderia deixar todo aquele ouro para trás, aquele tesouro poderia resolver minha vida para sempre.

Voltei lá, mas não de meia-noite e sim, de meio-dia, como ninguém pensou nisso antes, pensei. Foi tudo bem tranquilo, o ruim era o calor, o sertão incendiava-se na luz e calor do meio-dia, o ar tremia como num forno de braseiro, naquele lugar ermo, as cigarras eram as únicas coisas que se ouvia.

Depois de muito cavar, chão muito duro, quando estava quase desistindo, a pá tocou em algo, me animei, a ganância redobrou minhas forças, continue cavando.

- “Enfim, achei, um velho baú cheio de ouro, ele é todo meu. " Falei em voz alta.

Neste momento, os sentimentos de ambição e cobiça tomaram conta de mim.

Joguei o velho baú para fora do buraco, enxuguei o suor do meu rosto com a camisa, me preparei para ver uma quantidade de ouro que jamais pensei em ver em toda minha vida.

- “Estou rico, muito rico.” Murmurei.

Minhas mãos tremiam diante da botija, fiquei de joelhos defronte ao velho baú, mas ao abri-lo, uma revoada de morcegos saiu de dentro, tão rápido que eu caí para trás do susto, e o velho baú fechou novamente, pensei na hora, como pode? Fiquei de joelhos novamente e quando abrir, para meu espanto e minha melancolia, dentro da botija ao invés do ouro só havia carvão velho e folhas secas.

De dentro da mata fechada, uma gargalhada num tom maléfico, era maligno mesmo, o medo percorreu toda minha espinha, fui embora daquele lugar sem olhar para trás. Eu falhei com a alma do senhor Febrônio, e o demônio comemorou a sua vitória.

Até hoje, tenho pesadelos horríveis sobre essa história, faço terapia, mas é difícil apagar tudo da memória, coisas que presenciei e senti.

Meu irmão não quer nem tocar no assunto.

Sei, você pode até não acreditar, eu também não acreditava, mas vi, e vivi tudo aquilo, não desejo essa experiência para ninguém, não queira ver, para crer.

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“Contos da Meia-Noite, deseja que você tenha profundos e amargos pesadelos. ”

Fonte: Redação OpenBrasil.org
Foto: OpenBrasil.org

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