CONTOS DA MEIA-NOITE

Costurando o Silêncio



Algum tempo atrás, uma menina chamada Dalva admirava ver sua mãe costurando em sua velha máquina de costura de pedal. O sonho dela era um dia ser como sua mãe que era muito respeitada e requisitada por seu talento para fazer belas roupas.

No dia de seu aniversário de 15 anos Dalva ganhou de sua mãe a máquina de costura dela e jurou nunca se desfazer deste bem tão precioso, seguindo com a admirável carreira de costureira. Dalva ficou completamente feliz por ter seu sonho realizado.

Anos depois sua mãe faleceu, e a menina que agora era chamada de Dona Dalva continuou com seu trabalho, dia a pós dia. Ela fez tanto sucesso que todos a procuravam para fazer modelos especiais como casamentos, batizados e etc. Tinha tantos clientes, que mal tinha tempo para recolher as linhas do chão do valoroso dia de trabalho, sempre estava com sua tesoura, agulhas e linha sobre a mesa bem ao lado da sua inseparável máquina de costura. Por vezes tinha os pés cobertos por linhas de diversas cores, possuía uma mania de costurar descalça, para “pedalar” em sua máquina com mais rapidez, afinal, gostava de ver logo o resultado de suas criações e ver suas clientes saindo felizes e satisfeitas com o tão sonhado vestido. Apesar disso, era muito feliz, todos gostavam dela, era amiga de todos, e tornou-se a melhor costureira de toda a região, pois fazia o que mais gostava e adorava receber elogios por seu trabalho, tinha orgulho de tudo que fazia.

Um certo dia, uma jovem foi com sua mãe encomendar um vestido de debutante a Dona Dalva, a jovem foi um pouco arrogante desde do início, mas Dona Dalva logo pensou, ela é uma adolescente deve estar nervosa por fazer 15 anos uma data especial para qualquer garota, que sonha com seu vestido princesa e sua valsa com um belo príncipe. Mal sabia ela que esta jovem chamada Nicole era assim no dia-a-dia, era muito mimada e gostava de humilhar os outros.

No dia da prova do vestido de Nicole, Dona Dalva estava ansiosa para ver sua reação, ver seu sorriso ao ver o vestido rodado, bordado, com brilho, como se fosse encomendado por uma princesa, como sempre era a reação de todas as suas clientes. Mas infelizmente a reação de Nicole foi totalmente contrária, por algum motivo, ela esbravejou, disse que era o vestido mais feio que ela havia visto na vida, que jamais iria a sua festa de 15 anos com aquele trapo, tirou o vestido e o rasgou, falou para Dona Dalva que ela era patética e que de costureira não tinha nada, num momento de fúria a jovem jogou a máquina de costura no chão a que Dona Dalva havia ganhado de sua mãe e que até aquele dia ela trabalhava relembrando os momentos vividos com sua mãe com muito carinho, a qual se quebrou. Nicole ainda saiu gritando de raiva, a mãe dela ficou sem saber o que fazer, mas acompanhou a filha.

Dona Dalva ficou muito triste, chorou, e chorou por muito tempo, não acreditava que alguém não havia gostado de um de seus vestidos e ainda ter destruído seu bem mais precioso. Ela entrou em estado de depressão profunda, mal se alimentava, não queria ver ninguém, não estava se cuidando e nunca mais entrou em seu ateliê. Parentes tentaram contato e nada, até que 15 dias depois do dia fatídico que a jovem debutante esteve lá, um parente entra a força na casa de Dona Dalva e a encontra morta em estado deplorável, cabelos desgrenhados, roupas sujas e coberta por linhas coloridas, na verdade acabará de falecer há poucas horas de tristeza e desidratação. Seus familiares a enterraram com muita dor pois era uma pessoa muito querida. Naquela pequena cidade foi uma comoção geral.

15 anos se passam...e aquela jovem debutante arrogante, está com 30 anos, e continua do mesmo jeito apesar de tantos anos. Está prestes a se casar com seu noivo rico. Até que algo de estranho acontece, 15 dias antes da noite de seu enlace matrimonial, começaram a aparecer em sua casa linhas coloridas pelo chão, como se fosse um rastro, por mais que limpassem hora ou outra aparecia novamente pelo chão, dia após dia, noite após noite. Mas o que ela poderia temer? São apenas linhas, e seu sonho de casar-se com um bom partido está próximo não há nada do que se preocupar.

No dia de seu casamento, ela está feliz se aprontando para o dia mais importante de sua vida, fazendo suas unhas, arrumando os cabelos, maquiagem, colocando seus brincos de brilhantes e seu colar de pérolas, e claro, seu vestido de noiva de cor perolada, todo bordado, com pedrarias, muito parecido com o vestido que ela havia rasgado há 15 anos, estava como uma princesa com sua coroa na cabeça. Ela muito vaidosa e prepotente, reclama de cada detalhe, e nada está perfeito para ela.

Num certo momento ela manda todos saírem do quarto, e pede para ficar alguns minutos sozinha para admirar-se no espelho e ver como esplendorosa estava. Faltava calçar os sapatos, então ela sentou-se para calça-los, eis que ao levantar-se percebeu linhas coloridas pelo chão, achou estranho, mas não levou a sério. Continuando a admirar-se foi até o espelho mas não havia somente seu reflexo, tinha uma estranha criatura, com cabelos desgrenhados, roupas sujas, cobertas por linhas coloridas, e de pés descalços, ela olhou para trás rapidamente, mas não viu nada, ela se voltou para o espelho lentamente, e lá estava a criatura medonha, ela jogou no espelho um vidro de perfume, que fez o espelho fissurar e estilhaçar. O pai e a mãe que estavam do lado de fora do quarto se assustaram com o barulho de vidro quebrando e perguntaram do que se tratava, ela olhou novamente no que restou do espelho, não viu a tal visão aterradora e respondeu que era só estresse do casamento, que não era nada, era só estresse.

Quando ela se virou, lá estava a criatura na sua frente, por um momento ela ficou em silêncio, estática pelo pavor, mas depois perguntou a tal criatura com a voz embargado pelo medo o que ela queria. A criatura de voz escabrosa falou que era Dalva e que veio para vingar-se de todo mal que Nicole havia feito para ela há 15 anos, sem ter como fugir do local Nicole começou a gritar e tentar fugir, mas as portas estavam trancadas e as chaves haviam sumido, então a alma de Dona Dalva a atacou com uma enorme tesoura de costura, lhe golpeando 15 vezes, costurando sua boca com 15 pontos para que ela nunca mais falasse, rasgando seu belo vestido de casamento. Os parentes por fim, conseguiram arrombar a porta, assustados com os gritos de socorro de Nicole, mas já era tarde, a encontraram no chão já sem vida e rodeada por linhas coloridas.

A polícia foi chamada pelos familiares, isolou a área, houve perícia, mas não encontraram nenhum rastro do assassino. No quarto, as janelas estavam fechadas, além de ter grades, e essas estavam intactas, o ar condicionado estava ligado, portas trancadas por dentro, somente a chave havia sumido e não tinha sinal de arrombamento, como poderia entrar o assassino se a casa estava cheia e seus familiares estavam no corredor a espera de Nicole, por lá ninguém passaria despercebido.

A perícia até hoje não encontrou respostas, sem nenhuma pista além das linhas coloridas pelo chão, mas nada que levasse ao homicida. O caso hoje se encontra arquivado.

Alguns familiares confidenciaram, que o caso só poderia ter sido algo sobrenatural.

“Quem semeia maldade, jamais comerá os frutos da bondade. ”

“Contos da Meia-Noite, deseja que você tenha profundos e amargos pesadelos. ”

Fonte: Redação OpenBrasil.org
Foto: A/D - Arquivo OpenBrasil.org

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