CONTOS DA MEIA-NOITE

A Verdadeira História da Mulher de Branco



Uma roda de amigos e familiares num alpendre, numa antiga fazenda do sertão, a lua cheia ilumina a noite na caatinga ressecada pela seca e alguém começa a contar uma história de terror.

A verdadeira história da Mulher de Branco, essa é uma lenda que com certeza você já ouviu falar.

A história

Miguel tinha um humor festivo, ou talvez tivesse algo haver com a quantidade de uísque que ele já tinha bebido. De qualquer maneira, ele é um homem casado, com dois filhos, trinta e cinco anos de idade, arrumou seus cabelos e seguiu uma jovem para fora do bar para um encontro casual.

No dia seguinte quando Miguel não retornou ao hotel, seus sócios e amigos chamaram a polícia. Eles contaram que Miguel era um corretor de imóveis e acabará de fechar uma venda muito boa na região. Era a última noite deles na cidade de Caicó, e estavam comemorando o sucesso do negócio, e voltariam para capital ao amanhecer.

Miguel conheceu uma moça muito bonita, tinha olhos claros, pele branca, longos cabelos encaracolados, tinha um belo sorriso e usava um vestido branco, simples, sem mangas e que ia até o chão. Os amigos de Miguel não lembraram de vê-la conversando, mas mesmo assim, todos a acharam encantadora.

A polícia já havia escutado outras histórias semelhantes. Miguel seria apenas mais uma vítima da “Mulher de Branco de Caicó”.

A lenda conta que é sempre homens casados, em uma noite num bar ou numa festa, que simplesmente somem do mapa sem deixar rastro algum.

A lenda

A lenda da Mulher de Branco começa em meados dos anos 1953, dentro da casa de um sapateiro. Seu sonho era abrir uma loja no centro da cidade, não queria mais consertar, mas sim vender calçados tanto para homens, mulheres e crianças, e ele não seria mais pobre, pois ia ganhar muito dinheiro.

Por muitos anos, ele fantasiou sobre sua loja, mas o pouco dinheiro que ele conseguia com o trabalho de consertar sapatos em casa, dava apenas para o sustento sua esposa e as cinco crianças pequenas. Era um homem cheio de sonhos, mas com pouca ambição, o tipo de homem que se queixa da vida e culpa os outros por isso.

A medida que os anos passavam, sua filha mais velha cresceu e transformou-se uma bela moça. Ela tinha olhos azuis, pele lisa, parecia uma seda branquinha, cabelos longos e encaracolados que dançavam na parte de trás de suas costas enquanto caminhava pelas ruas da cidade. Ela atraia a atenção de muitos pretendentes.

O sapateiro adorava muito a sua filha. De todos os seus filhos, ela era sua favorita. Era gentil e engraçada, e sempre que estavam em casa, eles riam e compartilhavam histórias por horas a fio. Apesar de muitos homens desejarem ganhar seu coração, ela nunca havia manifestado interesse em se casar, ela acreditava num amor puro e verdadeiro. O sapateiro se contentou em deixá-la continuar preenchendo sua casa e sua vida, com gargalhadas, e assim recusou todos os pretendentes que chegaram a pedir sua mão.

A proposta

Uma das maiores criações de gado de leite da região do Seridó, ficava a 12 léguas de distância da cidade de Caicó, seu dono era um forasteiro vindo do estado do Ceará. Na cidade pouco se sabia da sua vida pessoal, além de ser um ser muito rude, até certo ponto, cruel com seus trabalhadores.

Ele era um homem de porte avantajado, tinha 53 anos de idade, mesmo não sendo muito feio, estava muito longe de ser bonito.

Ele viajava frequentemente para cidade de Caicó para tratar de negócios. Em uma dessas viagens ele olhou para baixo e descobriu que sua bota esquerda estava descolando. Decidiu procurar um sapateiro para arrumar suas botas.

Foi assim que o rico dono do gado de leite chegou casa do pobre sapateiro.

Enquanto ficou sentado em um tamborete, à espera do conserto, notou quando a filha do sapateiro atravessou a porta da sala em direção a cozinha e daquele momento em diante, ele queria aquela jovem custe o que custar.

O homem voltou à casa do sapateiro, todos os dias durante as próximas três semanas, trazendo presentes para toda a família, e especialmente para a filha.

Nesse período, propôs ao sapateiro diversas propostas, oferecendo um dote maior em cada visita. O sonho do sapateiro em possuir a loja de calçados no centro da cidade começou a parecer real, algo palpável, mesmo que deixasse sua filha infeliz com um futuro casamento sem amor.

O casamento

As suplicas que fez ao pai não mudaram o rumo da vida daquela jovem, na cabeça do sapateiro, ela deveria fazer um esforço para ajudar toda família.

Poucas pessoas estiveram presentes no casamento. As pessoas choraram, mas bem menos que a própria noiva. Ela usava vestido branco e simples, sem mangas que ia até o chão, que sua mãe tinha costurado, e mesmo com as lágrimas escorrendo em seu rosto, sua beleza não diminuiu nada. Depois que os votos foram ditos, o fazendeiro levou seu maior prêmio para fora da igreja e entrou em uma camionete Chevrolet C-10 azul ano 1973, dando-lhe pouco tempo para abraçar sua família e dizer adeus. Antes de pegar a estrada, ele tomou o cuidado de colocar uma venda nos olhos da sua bela esposa dizendo-lhe fazer uma surpresa.

O pesadelo

Por toda viagem, ela permaneceu quieta e triste pela circunstancias da vida, sem poder enxergar o caminho, seguiram para a fazenda, e quando chegaram, ele tirou venda da jovem, e ela se deparou com a terrível realidade.

O fazendeiro já era casado, ele confessou tudo, ela não seria sua esposa, e sim sua concubina.

O casamento dela foi armado, era tudo uma farsa para ter a bela moça em seus braços, o padre era um ator contratado, que o fazendeiro disse a família dela ser um grande amigo da família dele, e fazia questão que ele celebrasse o matrimonio.

Ele usou da sua conhecida e temida crueldade, contra a senhora sua esposa, para que ela aceitasse essa condição, que o marido mantivesse uma amante debaixo do seu próprio teto, dormindo com seu marido.

Quando ela se deparou com essa triste realidade, tentou fugir, mas foi contida por aquele homenzarrão, levada a força para um dos quartos do casarão da fazenda e violentada. Ela tentou lutar com todas suas forças, mas foi em vão.

Além de tudo, a jovem se tornou uma prisioneira, claro, deveria estar pronta para saciar os desejos e fantasias do seu dono, o fazendeiro. Vendo que com força não conseguiria sair daquela situação horrível e apavorante, se sentindo um objeto vendido pelo próprio pai. Decidiu deixar de comer e beber, viver já não era uma prioridade, pois na sua cabeça, a única solução para sair daquele sofrimento sem fim era morrer.

O fazendeiro tinha absoluta certeza que ele era um homem poderoso e rico, e que seus atributos financeiros o tornava digno para qualquer mulher ou amante. Se ela não o amava, ele acreditava que era porque ela amava outro. Um problema intolerável que ele ia consertar do seu jeito, a espancando dia após dia.

Ela tinha certeza que ele não era apenas um homem com uma alma maligna. Ele era o próprio demônio.

Mesmo quando já tinha emagrecido para nada mais do que uma bolsa desidratada de pele e ossos, ele continuava a lhe espancar, e cometer atos de crueldade.

Além de todas as agressões que sofria, saber que a verdadeira esposa também se atormentava por ter um marido cruel, desleal e infiel, doía em sua alma essa situação.

O sonho que virou realidade

Alguns dias depois do casamento de sua filha, o sapateiro estava acompanhando as obras de finalização da pintura e instalação de prateleiras, balcão e armários do ponto comercial, onde seria finalmente a maior sapataria de toda região, a realização do seu sonho. Os trabalhos estavam acelerados, como prometidos pelo fazendeiro.

Agora não mais consertaria sapatos, ele venderia, botas, sapatos, sandálias e bolsas de todos os tipos, a loja era bem localizada, na rua mais movimentada da cidade, ele já sentia o cheiro da riqueza no ar.

Três horas antes da grande inauguração, um cavalo puxando uma carroça parou na frente de sua loja, o senhor que guiava o cavalo disse que havia uma entrega para o dono da loja, o sapateiro pensando ser mais mercadorias para sua loja de sapatos, pediu para seus filhos levar e colocar o caixote de madeira no deposito do comércio.

Ao se dirigir ao deposito, ao abrir o caixote pensando ser calçados para colocar nas prateleiras da loja, tomou o maior susto que teve em toda sua vida, um cadáver, visão era simplesmente aterradora. Ele demorou para reconhecer sua filha, e acho que se não fosse pelo vestido, talvez não a tivesse mesmo reconhecido. Ela vestia o mesmo vestido branco que usara no casamento.

Enquanto pegava o cadáver da filha nos braços, chorando o sapateiro se lembrou de quão linda ela era, ela falecerá no mesmo dia da inauguração da loja de calçados.

Sonhos e desejos estilhaçados

A loja nunca foi inaugurada.

Três meses após enterrar sua filha, o sapateiro faleceu. O pai da jovem morreu de uma depressão profunda, ele nunca se perdoou por deixar sua ambição falar mais alto do que a felicidade de sua amada filha.

Pouco tempo depois o fazendeiro ficou louco, e três anos depois se suicidou-se enforcado no mesmo quarto onde aprisionava a jovem mulher. Ele dizia ver a alma de uma mulher vestida de branco, vagando onde ele fosse, onde ele estivesse, ela lá estava, dia e noite sem fim.

Mulher de Branco

A história é sempre a mesma. Uma jovem linda, com um vestido branco simples e sem mangas, que ia até o chão, é vista levando a vítima, sempre homem casado, que cede à tentação e os encantos de uma bela jovem, sendo levado para fora de algum bar ou festa, e desaparecem sem deixar pistas.

Ninguém lembra dela falando, mas todos lembram de seu belo sorriso e seus longos cabelos encaracolados.

Muitos dizem que sua missão na terra é vingar-se da infidelidade dos homens.

“Contos da Meia-Noite, deseja que você tenha profundos e amargos pesadelos. ”

Fonte: Redação OpenBrasil.org
Foto: A/D - Arquivo OpenBrasil.org

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