Contos da Meia Noite: Demônio na Fazenda

Demônio na Fazenda


Minha avó tem hoje 84 anos, vivia em minas Gerais nos seus tempos de criança, isso em 1939.
Sempre que temos uma reunião de família ela nos conta suas histórias desta época, quase sempre de fantasmas e demônios.
Em umas dessas histórias ela relembra quando morava na cidade de Paraiso. Moravam ela, uma irmã e seus pais em uma casa grande, em uma fazenda isolada da cidade como toda boa casa assombrada deve ser. Seus irmãos já homens formados e não viviam mais com eles.

Certa noite seus pais foram a cidade, sabe-se lá Deus porque, e devido a uma chuva forte ficaram presos na cidade e não retornaram a casa nesta noite e então ficaram as duas sozinhas em casa, ambas em torno de 12 anos de idade. Esta irmã de minha avó sempre apresentou segundo ela, um comportamento estranho e nesta noite fatídica provou que fazia sentido seu comportamento arredio e calado.

Chuva forte, relâmpagos seguidos de trovões, sons estranhos vindos de fora. De repente a chuva para, silêncio total (dizem que esta é a hora que o demônio ronda), nenhum som audível… passam-se alguns segundos e de repente os cães começa a latir e uivar, como se vissem algo que devessem afastar da casa.

Novo silêncio.

De repente um dos cães começa a chorar, um choro doído, como se estivesse sendo machucado brutalmente e silencia, nessa hora as garotas se escondem no quarto e trancam as portas. Ouvem então barulho de passos ao redor da casa, mas não passos humanos, passos de algo pesado e aparentemente com cascos e para bem em frente a janela do quarto. A esta altura as crianças já estavam apavoradas, porém a irmã de minha vó como que em transe se levanta, encosta a testa na janela de madeira, com os braços pendurados ao lado do corpo e lá fica. Minha avó disse ter ouvido a respiração do que estava lá fora, bufando na janela, como que farejando sua irmã e fazendo com que os cabelos se movessem tamanha a força da respiração da criatura que estava lá fora; Religiosa, minha avó começou a orar, de nada adiantava, quanto mais orava, mais a criatura se irritava e corria em torno da casa, até que em certo momento se jogou contra a porta da sala: -BUMMMMMM!! O som invadiu a casa e apavorou de vez minha avó, sozinha na noite escura, apenas sob a luz de um lampião.

-BUMMMMMM!! Nova investida da criatura contra a porta, seguida de um grito de homem como se sentisse muita dor, -BUMMMMMM!! -BUMMMMMM!! , por várias vezes essa criatura se jogou contra a porta, como que querendo entrar em casa. Minha avó ajoelhou-se, próxima a sua irmã que ainda estava encostada na janela em transe, segurou sua mão e começou a orar novamente. Como que por comando do demônio que tentava entrar na casa, a irmã de minha vó foi direção a porta e iria abri-la se não fosse minha avó impedi-la empurrando- a contra a parede. Mesmo assim ela ainda se levantou e seguiu novamente para a porta, como se o demônio que rondava a casa estivesse dando forças a ela;
Minha avó conta que durante toda a noite seguiu-se esse inferno, esse demônio rondando a casa, tentando entrar, dando urros horrorosos e sua irmã completamente fora de si. Não dormiu aquela noite.
Pela manhã seus pais chegaram e a primeira cena: Um dos cães morto, como que amassado, com as tripas para fora, como que pisoteado por alguma coisa; Dentro da casa a segunda cena: Uma garota completamente fora de sí, catatônica e a outra aterrorizada.
Ela contou a eles toda a história… Por acaso do destino, uma de suas tias era de um centro de macumba, frequentadora e cavalo de espíritos, sua mãe pediu a ela então que livrasse sua casa desse demônio que atormentara as duas na noite anterior. Em uma das sessões do centro, sua tia recebeu uma entidade (a qual ela não lembra o nome), e essa entidade disse que era sim o próprio Demônio que estava em torno da casa, e tentava entrar para matar sua irmã pois ela havia sido prometida a ele. Segundo minha avó essas foram as palavras do Demônio ao ser questionado do motivo de ter ido a casa:
- Num entrei… num entrei mas vô entrá naquela casa e fazê miséria… vô acaba com aquela minina, vô arrebentar as carne dela, vô faze ela sofrer… Ela é minha!!! Ela é minha!!!… me deu eu vô levá… Eu levo… Eu levo….

Desse dia em diante, eles viveram sob constante vigilância, com medo e não demorou muito vieram para São Paulo, onde ela vive até hoje.
Sua irmã, teve um destino cruel: morreu jovem aos 24 anos. Se matou após ter seu primeiro filho, dizendo numa carta que não suportava mais os “tormentos” e que já estava farta da vida… Eu me pergunto: Aos 24 anos???

Afirma minha avó que antes deste fato, anos antes, um de seus irmãos ficou ‘rico” da noite pro dia. Sem dúvida esse irmão ao qual a ela se refere existiu, vejo através de fotos a fazenda e as cabeças de gado que ele possuía, porém, também se matou poucos anos depois. Ela atribui a ele, a oferta da vida de sua irmã ao demônio em troca da fortuna.

Fonte: Gabriel Garcia para OpenBrasil.org
Foto: A/D - Arquivo OpenBrasil.org

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