Contos da Meia Noite: Eles Ainda Podem Ouvir

Eles Ainda Podem Ouvir


Havia um garoto, Cícero, que estava muito mal, em coma (não me lembro o que ele tinha). Minha professora era médica (pediatra) nesse hospital. Cícero não era paciente dela, mas ela sempre passava para dar uma olhada nele. Os médicos diziam que era questão de tempo só... ele morreria em breve. Ela não se conformou e passou a visitá-lo todos os dias e conversava com ele. Dizia coisas boas, que ele era forte e ia sair daquela, que ele era um menino bonito, contava coisas engraçadas, acariciava sua mão, beijava sua testa. Ela ficou sabendo que ele gostava de um certo quadro. Pediu à família que trouxesse então o quadro e colocou nos pés da cama dele, disse que o quadro que ele gostava estava lá. Ela falava sobre o quadro, comentava como era realmente bonito.... E assim foi por cerca de 2 meses!

Os médicos já não estavam gostando e falavam pra ela não dar falsas esperanças à família. Mas ela não deu ouvidos. Certo dia uma outra médica veio a ela e disse que o menino reagiu... ela não se cabia de felicidade!!! Ele estava melhorando!!! Porém, num outro dia um certo enfermeiro que não gostava que a minha professora ficasse falando com o garoto daquele jeito disse ao lado de Cícero "Pára com isso! Todo mundo sabe que esse garoto não tem chance nenhuma... ele vai morrer!!!"... A minha professora conta que naquela hora ela sentiu a maior vontade do mundo de ser homem (ela é bem baixinha), para dar um soco na cara daquele enfermeiro infeliz!!! Depois desse dia o menino voltou a decair!

Ela ficou um final de semana sem trabalhar e não pode vê-lo. Quando voltou disseram que ele estava muito, muito mal já... Ela foi conversar com ele, dizer para não dar ouvidos ao que aquele enfermeiro tinha dito. Ela dizia "Eu estou aqui com você agora!"... qual foi o espanto quando o garoto abriu os olhos, olhou para ela e fechou novamente. Dias depois ele morreu...

Minha professora disse que sentiu naquele olhar uma mistura de gratidão e despedida.

Ela chora até hoje quando conta. Disse que é a maior prova que ela já teve de que a pessoa em coma ou "inconsciente" pode ouvir e sentir o que se passa ao seu redor.

Fonte: Ana Paula Lazarini Fornazari / Assombrado
Foto: A/D - Arquivo OpenBrasil.org

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