Contos da Meia Noite: A Mulher do Cabelão

A Mulher do Cabelão



As histórias de terror não são exclusividades da cidade. Na aldeia Ipegue, distrito de Taunay, em Aquidauana, a 135 quilômetros de Campo Grande, todo mundo conhece a história da "mulher do cabelão".

Alguns dizem que se trata de uma morena, outros teimam que é loira, mas de uma coisa ninguém duvida: Trajando uma longa vestimenta branca, ela aparece debaixo de um pé de manga, em uma área mal iluminada, e prefere os dias de lua cheia.

Com a beleza, encanta moradores e os leva para o cemitério da cidade. De longe é linda. De perto, tem o rosto coberto por larvas. O boato, com ares de lenda, existe há mais de 30 anos. É repassado de geração em geração e ainda assusta muita gente.

Fabriciane Malheiro, de 29 anos, que nasceu na Aldeia Ipegue, ouviu essa história do próprio tio, que garante ter sido o primeiro a ver a tal assombração, em 1980. Na versão repassada à jovem, o espírito que vaga a aldeia é de uma linda morena, alta, esguia, de cabelos compridos, que aparece apenas para os homens ou para quem quer vê-la.

Passava da meia-noite quando o tio de Fabriciane saiu da casa onde estava para ir ao banheiro, que ficava do lado de fora. No caminho, ao passar pelo pé de manga – que fica em uma área cercada de árvores da mesma espécie -, encontrou, pela primeira vez, a "mulher do cabelão".

"Quando saiu ele viu uma moça muito bonita saindo debaixo do pé de manga. Ela olhou para ele e continuou andando. Depois, virou a esquina onde tinha um cavalo branco, mas o bicho saiu correndo", contou. O tio, tremendo de medo, tratou de fugir.

Anos mais tarde, a mesma assombração teria aparecido para outros dois jovens. Curiosos, eles passaram a segui-la. “Quando ela virou para os meninos, o rosto dela era só coró”, disse.

As últimas aparições da “mulher do cabelão” teriam ocorrido no ano passado. “Ela já levou um para o cemitério. Chegou perto e falou: Vamos conhecer minha casa? Quando a pessoa se dá por si já está na porta do cemitério”, relatou.

Com a mesma convicção de Fabriciane, Ivaneis Gonçalves Moreira, de 37 anos, que também nasceu na aldeia Ipegue, confirma o relato, mas para ele a história chegou com algumas alterações. A “mulher do cabelão” é loira e não uma morena. O local em que aparece também é diferente. Seria debaixo de um pé de ingá e não de um pé de manga.

“Dizem que ela te convida para ir até a casa dela. O pessoal fica meio vendido, meio fascinado. Tem um cara que ficou perdido no meio do mato e só voltou dias depois”.

A história, para ele, é verdadeira, incontestável, porque foi repassada por parentes e moradores de confiança. “Não é bem uma lenda, porque todas as lendas são baseadas em histórias verídicas”, destacou.

Acadêmico do curso de letras na UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), Ivaneis já tem o tema para o seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso): literatura e cultura indígena.

A ideia é transformar essas histórias em um livro que poderá ser distribuído nas reservas indígenas do Estado. “Está perdendo isso. A pessoa não senta mais com o filho porque já tem televisão, computador. Não conversa, não interage mais”, afirmou.

Fora a mulher do cabelão, na aldeia, ressaltou, há uma porção de outros relatos assustadores: do homem que vira lobisomem, do “pé de garrafa”, o andarilho que grita à noite e faz as pessoas se perderem, entre outros.

Fonte: Elverson Cardozo
Foto: A/D - Arquivo OpenBrasil.org

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